Após ‘Yellowstone’, Taylor Sheridan expande seu império do faroeste – 30/12/2021 – Cinema e Séries

Após ‘Yellowstone’, Taylor Sheridan expande seu império do faroeste – 30/12/2021 – Cinema e Séries



The New York Times

Antes que Taylor Sheridan recebesse uma indicação ao Oscar como roteirista de “A Qualquer Custo”, um neo-western lançado em 2016, e se tornasse um dos criadores (com John Linson), da série “Yellowstone”, sucesso na Paramount Network, ele passou quase 20 anos trabalhando como ator, procurando papéis que pedissem por um caubói moderno.

Sheridan cresceu cavalgando e trabalhando com animais na região rural do Texas e, antes de começar a se interessar pelo cinema e televisão, presumia que passaria a vida saltando de rancho a rancho como vaqueiro. Em lugar disso, se tornou intérprete de caras durões e policiais implacáveis, na TV.

Desde que passou a trabalhar por trás das câmeras, Sheridan vem tentando garantir que os atores coadjuvantes que o acompanham interpretem policiais e bandidos mais complexos do que aqueles que ele mesmo costumava interpretar. Começando por seu primeiro roteiro produzido, “Sicario: Terra de Ninguém”, Sheridan vem contando histórias sobre crimes sinuosas, que se passam em jurisdições mal definidas e envolvem homens e mulheres ferozes que lutam para proteger seus legados.

Mesmo o drama “Yellowstone”, uma história com algo de novela que fala sobre as brigas de poder em torno de um grande rancho em Montana, lida com as disputas de propriedade entre pecuaristas veteranos, investidores endinheirados que desejam transformar as vastas propriedades rurais em resorts e povos indígenas que lutam para preservar as terras da maneira que um dia foram, antes que os Estados Unidos se expandissem para o oeste.

“Yellowstone” se tornou um sucesso fenomenal na Paramount (no Brasil, ela está disponível na plataforma Pramount+). Em sua quarta temporada, a série registra em média sete milhões de telespectadores por episódio nos dias de estreia nos EUA, superando a maior parte das séries dramáticas das redes de TV abertas. (O número sobe a 11 milhões se forem computados os espectadores da primeira semana de streaming.)

A série não recebe muita atenção da crítica, especialmente se comparada a favoritos das classes falastronas como “Succession”, que inspira muita discussão mas atrai apenas uma fração da audiência conquistada por “Yellowstone”. Mas seu sucesso levou a ViacomCBS, controladora da Paramount, a desenvolver novas séries criadas por Sheridan, entre as quais “Mayor of Kingstown”, um drama sobre crime (criado com Hugh Dillon), que estreou no mês passado no serviço de streaming Paramount+.

Outras produções em preparo incluem “6666”, derivada de “Yellowstone”; um drama sobre exploração de petróleo no Texas chamado “Land Man”; e outra série sobre crime, “Kansas City”, estrelada por Sylvester Stallone.

O mais recente programa de Sheridan é ainda outra série derivada de “Yellowstone”, intitulada “1883”, que estreou no último dia 19, nos Estados Unidos, na Paramount+. A história é uma prequela que conta a história do rancho retratado em “Yellowstone”. Acompanha James Dutton (Tim McGraw), sua mulher Margaret (Faith Hill) e a filha adulta do casal, Elsa (Isabel May), em sua batalha contra os perigos e desconfortos de uma viagem de caravana do Texas ao seu novo lar em Montana.

Enquanto corria para completar “1883”, Sheridan conversou comigo pelo telefone sobre o que está tentando realizar com a série e com sua carreira em geral, que vem sendo dedicada acima de tudo a expandir o conhecimento da audiência sobre caubóis e sobre o oeste dos Estados Unidos. Abaixo, trechos editados da conversa.

Por que fazer da primeira série derivada de “Yellowstone” uma história de origem? E por que situá-la em um passado tão distante?

Os pioneiros jamais foram retratados de maneira precisa. Muitos deles vieram da Europa Central, da Europa Oriental, e da Ásia, e contratavam guias para conduzi-los ao oeste. Nunca tinham visto um cavalo. Nunca tinham usado uma arma. E não faziam ideia de que as terras a que estavam se dirigindo pertenciam a outro grupo de pessoas.

Mas os indígenas não eram a maior ameaça às caravanas. Se você estudar as principais causas de morte nas trilhas, cair da carroça era a número um, seguida por doenças e bandidos. Ataques de indígenas eram, mais ou menos, a sexta maior ameaça.

As histórias sobre caravanas e sobre o transporte de gado são ingredientes básicos dos westerns. Você tem um western favorito, entre essas histórias de estrada?

A série “Lonesome Dove” me influenciou demais. Eu não fazia a menor ideia do que queria fazer. Achei que terminaria trabalhando como caubói em qualquer lugar. Antes disso, eu pensava em ou ir para a universidade ou me alistar no Exército, e não tinha vontade alguma de me alistar no Exército. E aí, dois dias antes de eu partir para a universidade, “Lonesome Dove” estreou. Eu tinha lido o livro, e eles filmaram exatamente como eu imaginava a história. E aí pensei que sabia exatamente o que queria fazer com a minha vida: fazer aquilo.

O que estou contando é minha versão disso? Não intencionalmente, mas é inevitável que seja, um pouco. Embora certamente existam elementos românticos e poéticos na história, estou tentando ao máximo mostrar às pessoas como as coisas eram. Às vezes, tudo era incrivelmente feio, perigoso e difícil.

Você ainda convive com caubóis. Eles assistem a muitos westerns?

É só o que assistem. [Risos.] Todo caubói que conheço tem uma cópia de “Lonesome Dove” e assistiu à série 700 vezes. Só assistem a filmes de caubóis.

Você começou sua carreira como ator em Hollywood em séries como “Sons of Anarchy” e “Veronica Mars”. Alguém nessas séries se tornou um mentor quando você começou a escrever roteiros?

Honestamente? Meu mentor foi Cormac McCarthy. Meus mentores foram Larry McMurtry, Toni Morrison, Gabriel García Márquez e John Steinbeck. Todos os escritores que me comoveram.

Nunca fiz uma aula de redação de roteiros em minha vida. A maior parte do trabalho que fiz para a televisão não foi muito boa. Nunca tive um agente chique, e por isso nunca fiz audições para filmes realmente bons. Quando desisti de atuar e comecei a contar minhas histórias, eu tinha guardado a maioria dos roteiros de filmes e séries para os quais fiz testes e nos quais trabalhei, e por isso fiquei quatro dias sentado relendo todos eles. “OK, não tenho ideia de como fazer isso, mas acabo de passar quatro dias recordando como não fazer”.

O que você aprendeu com isso? Qual é o seu objetivo com o seu trabalho?

Espero que ele seja uma reflexão honesta do mundo e que crie uma sensação de autenticidade. Tento escrever diálogos que em minha opinião sejam críveis quando os personagens os dizem, mas também me esforço para que sejam ligeiramente elevados. Tento fazer com que meus diálogos soem como algo fora do tempo. Quando escrevo um roteiro, o que faço é tentar escrever um livro. E quando filmo um programa de TV, o que faço é tentar fazer um filme.

Você já tentou definir por quanto tempo quer que “Yellowstone” dure, tendo em vista a popularidade da série?

Bem, eu sei como a história acaba. Estou escrevendo para chegar a esse fim. Há um limite para o quanto se pode enrolar antes que a história comece a perder sua locomoção. Não há como deixá-la em ponto morto só porque está sendo um sucesso. Vai durar tanto tempo quanto for preciso para eu contar a história, mas não teremos nove temporadas da série. De jeito algum.

Você se vê continuando a fazer mais coisas no mundo dessa série, como “1883”?

Não gosto de me limitar. O que me atrai no oeste é o fato de que é uma região esparsa, e foi lá que passei a maior parte da minha vida. Morei em Nova York por algum tempo. Curti o tempo que passei lá, mas só poderia escrever sobre essa experiência da posição de um outsider. Gosto de estar ao ar livre. Gosto de usar a câmera como pincel, e acho que poder ver a vastidão dessa nação é uma experiência rara. Por enquanto, é isso que mais me fascina.

Existem alguns temas comuns em seus roteiros. “Yellowstone” é sobre poderosos proprietários rurais e “A Qualquer Custo” fala de dois caras que mal conseguem sobreviver, mas que ao mesmo tempo são pessoas que vivem morrendo de medo de perder parte de seu legado. Por que você gosta de contar sempre essa história?

Não sei se esse é um medo unicamente americano ou um medo humano mais amplo: o medo de que a vida esteja acabando. Não passei tempo suficiente em outros países para ter certeza. Mas acho que é um tema muito grande, o medo de perder uma pessoa que você ama ou um lugar que você ama. É algo bastante universal.

Você se surpreende, diante da popularidade de “Yellowstone”, por a série não ser alvo de atenção crítica tão grande? Não é costume falar dela nas conversas sobre prêmios televisivos ou nas listas de melhores do ano dos críticos.

Oh, eu não me incomodo com isso. [Risos.] Não ligo que os críticos odeiem e não ligo que gostem. Não tenho ressentimentos. Simplesmente não ligo. Não faço a série para eles. Faço-a para pessoas que vivem aquela vida. A audiência se expandiu para além daquelas pessoas porque, como você sabe, muita gente ama westerns.

Acho que um dos motivos para que os críticos não tenham respondido a “Yellowstone” é que estou violando muitas das regras usadas normalmente nas histórias. Eu adianto a trama sem motivo, a não ser pelo fato de que quero fazê-lo e o resultado é divertido. As pessoas que entendem curtem muito, mas as pessoas que tentam considerar a coisa com olho crítico acham péssimo.

Mas é isso que amo em “Yellowstone”, a maneira pela qual ela flui do cafona ao melodramático ao intensamente dramático e violento. É uma mistura de todos os velhos westerns, novos westerns e novelas, todos jogados no mesmo liquidificador. E, sim, creio que isso enfureça e desoriente algumas das pessoas que estudam a arte de contar histórias. Elas não conseguem compreender como é que algo assim pode ser sucesso.

Eis o motivo: os atores são muito bons, e a locação é fantástica. E estamos vislumbrando um mundo que ninguém conhece de verdade. Eu crio cenas muito exageradas e me divirto com isso, e os atores também se divertem. Temos atores muito poderosos que têm diálogos com substância para dizer.

É mais complicado fazer westerns hoje em dia, agora que as pessoas prestam mais atenção à representação cultural na mídia? Você com certeza não hesita em contar histórias sobre imigrantes e sobre pessoas de origem indígena.

Em última análise, o que é preciso perguntar é que história você está contando, e por que você a está contando. Se você ergue um espelho para o mundo e o reflete com precisão, quem se importa com o que outras pessoas possam pensar? É preciso contar histórias que importam para você. Tenho a liberdade de fazer isso, constitucionalmente, e portanto é o que farei.

Começo essas coisas sem ter um objetivo, e sou criticado pelos dois lados. Algumas pessoas assistem a “Yellowstone” e se queixam de que é uma série feita para conservadores. E a outra metade acha que sou comunista caso um personagem defenda os direitos dos animais. Para mim, é só o mundo, e lá está ele.

Nunca aceitei gastar dinheiro com ou dedicar meu tempo a alguma coisa que me diga como pensar, mesmo que eu concorde com ela. A arte traz mudanças sociais, sim, mas elas vêm da discussão. A arte deve deflagrar o diálogo que promove a mudança. Tento apresentar os dois lados, mesmo as coisas com que não concordo.

Nos westerns, é preciso ter a capacidade de deixar de lado o nosso passado, e, sim, ter a capacidade de questionar. Mas nem tudo que aconteceu nos Estados Unidos desde que um europeu ocidental primeiro pisou no país foi uma tragédia. Houve tragédias e houve triunfos, de todos os lados. A história jamais é tão limpa quanto tentamos fazê-la em nossos esforços de recontá-la. Já eu prefiro recontar as coisas de um jeito mais sujo.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original