Após sentir de perto a falta de políticas de apoio, estudantes optam por carreira em gestão pública – 11/02/2022 – Educação

Após sentir de perto a falta de políticas de apoio, estudantes optam por carreira em gestão pública – 11/02/2022 – Educação


A pandemia do novo coronavírus desencadeou um aumento da crise social e jogou luz sobre a importância de políticas públicas no Brasil. Órgãos governamentais e iniciativa privada se viram obrigados a terem mais atenção com o tema, procurando suprir demandas da sociedade. Isso também provocou reflexos no perfil dos estudantes de administração-gestão pública que buscam oportunidades no serviço público, no terceiro setor e na iniciativa privada para exercer mais impacto na coletividade.

Políticas públicas mal empregadas, ou até mesmo a falta delas, fizeram parte da vida de estudantes que optaram pela carreira acadêmica. Outros estiveram à margem, o que também despertou a vontade de querer fazer a diferença de alguma forma. E até mesmo quem já está no serviço público, enxerga na graduação em administração-gestão pública uma forma de crescer na carreira dentro do funcionalismo.

Segundo o Censo da Educação Superior, realizado em 2019 pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), o Brasil conta atualmente com cerca de 300 cursos voltados à administração-gestão pública. São aproximadamente 75 mil matrículas em universidades públicas e privadas.

As motivações dos estudantes são variadas, mas chama a atenção aqueles que sentiram na pele a falta de políticas públicas e esperam poder acrescentar algo à sociedade. É o caso do capixaba Wilson Rocha Filho, 23, estudante do terceiro ano de gestão pública na USP.

“Senti que não dava para entender a política como algo secundário na minha vida. De alguma forma ela estava circundando toda a minha realidade”, diz Rocha. “Dentro do meu círculo familiar, ninguém tinha ingressado no ensino superior. Nunca esteve no horizonte estar no ensino superior. Só de entrar já era um feito muito grande.”

Negro, filho de pai analfabeto e mãe que cursou até a 6ª série, Rocha sempre estudou em escola pública. Veio para São Paulo em 2019, depois de passar no vestibular. Nos dois primeiros anos, morou em uma república. Seu sustento na cidade foi graças às bolsas de aluguel e permanência que conseguiu na USP. A alimentação era dentro da universidade. Seu primeiro objetivo estava voltado à segurança pública, mas isso foi mudando com o desenrolar do curso.

“O que eu tinha era um setor de interesse, sempre uma proximidade maior com segurança pública. Muito por conta do meu contexto, e era o que eu tinha no radar quando ingressei no curso. Conforme o tempo foi passando, houve um interesse maior pelo nível operacional e tático”.

Já com a também baiana Alice Brim, 22 anos, o caminho foi diferente. Filha de pai engenheiro e mãe médica, ela optou pelo curso de administração pública depois que fez uma excursão com a sua escola, em 2016, até São Paulo.

“Na apresentação da FGV [Fundação Getúlio Vargas], eles falaram sobre o curso de administração pública e me vi trabalhando com isso, porque eu queria trabalhar no terceiro setor”, diz Alice, que foi mudando de direção ao longo do curso e com os estágios.

“Fiz estágio na área de administração financeira de uma organização do terceiro setor. O segundo estágio foi no BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento], onde trabalhei com inovação. Agora estou entrando no terceiro estágio, que é no Cubo, hub de startup do Itaú, onde vou trabalhar com parcerias.”

Na contramão de Rocha, Alice teve um aporte dos pais para cursar a faculdade em São Paulo. A mensalidade da FGV é de R$ 5.100. Além disso, tem o aluguel e as demais despesas, aproximadamente R$ 2.200.

“Sempre tive de tudo no que tange à educação, mas grande parte dos meus amigos não tiveram a mesma oportunidade, não tinham a mesma estrutura.”

Segundo Cibele Franzese, coordenadora da graduação em administração pública da FGV, é natural o estudante entrar no curso sem saber ao certo ainda qual caminho pretende seguir.

“A gente tem um perfil principalmente feminino, uma pessoa que quer gerar impacto social, mas que não se decidiu se quer trabalhar no governo, no terceiro setor ou empresa privada, ainda quer definir seu caminho.”

A mineira Ana Luiza Ferreira, 32, cursa o terceiro semestre de administração pública na Cruzeiro do Sul Virtual. Servidora pública na Câmara Municipal de Confins (MG), ela já tem seu objetivo traçado. “Por meio do trabalho, me apaixonei pela área. Sempre tive o interesse em políticas públicas e hoje tenho como objetivo trabalhar com gestão de pessoas.”

A também mineira Augusta Cora Lama Lopes, 19, aluna da graduação em administração pública da Fundação João Pinheiro, em Belo Horizonte (MG), está no quinto semestre do curso e ainda procura um caminho a seguir. Admite que a motivação hoje é diferente da que tinha no início do curso.

“Estava muito em dúvida do que iria fazer. A mãe de uma amiga me apontou o curso administração pública da fundação como uma opção, porque lá eles exploram muitas matérias diferentes. Depois que entrei no curso, vi que é muito além disso. Permite explorar áreas diferentes e também dá muita abertura de portas.”

A pandemia também trouxe oportunidade para uma tomada de consciência, uma maior pressão por transparência nas políticas públicas, segundo Janice Bogo, chefe do Departamento de Administração Pública do Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas, em Florianópolis.

“As pessoas se viram mais frágeis, se viram num momento de recolhimento no qual puderam se aprofundar um pouco mais no conhecimento, puderam ver com mais clareza a importância das políticas públicas e também o impacto daquelas que não existem ou que são mal feitas.”

Para professores ouvidos pela reportagem, ainda há no país um certo preconceito com relação ao curso. “Às vezes alguns jovens querem fazer administração pública e os pais pensam: ‘meu filho vai trabalhar em governo? Isso não é promissor, não vai ter oportunidade de trabalho, vai ser mal remunerado, o governo não é um lugar confiável para trabalhar'”, diz Cibele Franzese.

Receio dos pais não foi o que ocorreu com a catarinense Kauana Moraes Keitel, 22. Ela está no final do curso de administração pública da Universidade do Estado de Santa Catarina, em Florianópolis.

“Com eles foi bem tranquilo, porque, como são empresários, é meio que um caminho contrário do servidor público. Aqui [em Santa Catarina] tem muito órgão público, então eles apoiaram”, diz Kauana, que participa do programa de residência em gestão Pública da universidade, prestando consultoria na Controladoria-Geral do Estado de SC. Ela pretende prestar concurso e fazer mestrado dentro da universidade.

O momento político do país também pesa na escolha dos alunos. De acordo com Cibele Franzese, o governo atravessa um momento de descrédito, e isso é absorvido pelos estudantes. “Temos conversado bastante com os alunos do nosso curso porque tem tido um desânimo geral.”

Apesar da oferta, o número de candidatos por vaga para o curso na Fuvest vem caindo nos últimos anos. Em 2021, foram 320 inscritos para 84 vagas, uma média de 3,8 candidato por vaga. No ano anterior, essa média caiu para 3,4, com 296 inscritos. Nos últimos cinco anos, o maior pico foi em 2020, com 509 candidatos, o que dá uma média de 6,05 por vaga.

“Esses cursos dependem muito da imagem social que o Estado e o governo têm diante da sociedade, sobretudo diante dos alunos mais jovens, que são influenciados pelos pais na escolha. Como nos últimos anos essa imagem piorou, sobretudo a uma retração no mercado de trabalho governamental, há uma diminuição no número de candidatos por vaga”, diz Fernando de Souza Coelho, professor do curso de gestão de políticas públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

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