Alunos do ensino médio de SP têm desempenho mais baixo da história – 02/03/2022 – Educação

Alunos do ensino médio de SP têm desempenho mais baixo da história – 02/03/2022 – Educação


Os estudantes de ensino médio das escolas estaduais de São Paulo tiveram em 2021 o menor rendimento em matemática na prova do Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) desde 2010, início da série histórica.

Os dados foram divulgados na tarde desta quarta-feira (2) pela Secretaria da Educação do Estado. As provas foram aplicadas em dezembro do ano passado para mais de 642 mil alunos do 5º e 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio da rede estadual.

Os resultados mostram que durante a pandemia de Covid-19 houve piora no rendimento escolar em todos os níveis de ensino e nas duas áreas avaliadas, língua portuguesa e matemática. Para o secretário de Educação, Rossieli Soares, a perda histórica de aprendizado será um desafio a ser enfrentado nos próximos anos.

“O que já era ruim ficou ainda pior. O ensino médio estava no fundo do poço e a pandemia mostrou que pode piorar”, disse.

Soares afirmou não ser possível estimar o tempo necessário para recuperar o nível de aprendizado de 2019, antes da crise sanitária.

Prova feita pela Prefeitura de São Paulo nas escolas municipais também identificou que houve aumento recorde da defasagem de ensino nos últimos dois anos, quando os alunos tiveram parte das aulas a distância.

Segundo os resultados do Saresp, a média dos alunos que concluíram o ensino médio em 2021 foi de 264,2 pontos em matemática, uma nota que é considerada adequada para os que estão no 7º ano do ensino fundamental, ou seja, eles terminaram a educação básica com uma defasagem equivalente a quase seis anos de aprendizado.

Só 3,2% dos alunos chegaram ao fim do ensino médio com o aprendizado considerado adequado em matemática. A maioria terminou com proficiência abaixo do que é considerado abaixo do básico (58,7%) ou básico (37,9%). Na prática, isso significa que 96,6% saíram da escola sem saber identificar uma figura geométrica, como um poliedro.

Em língua portuguesa, a média dos estudantes ao fim do 3º ano do ensino médio foi de 263,1 pontos, a menor desde 2013. Essa nota é considerada adequada para o que deveriam aprender no 8º ano do ensino fundamental.

Nessa disciplina, só 24% terminaram o ensino médio com o aprendizado considerado adequado. Isso significa que 76% dos estudantes não conseguem identificar o objetivo central de um texto simples, como uma nota.

Apesar da piora de rendimento ser maior no ensino médio, o retrocesso de aprendizagem foi mais expressivo no 5º ano do ensino fundamental. A média dessa série foi a que mais caiu na comparação com os resultados de 2019.

A média em língua portuguesa caiu 8,6% nesses dois anos, saindo de 216,8 pontos para 198,2 –patamar semelhante ao registrado em 2012. Essa nota é considerada adequada para alunos que estão no 3º ano do fundamental.

Com essa média, 51,4% dos alunos chegaram ao fim do 5º ano sem ter aprendido o adequado, o que significa, por exemplo, que não conseguem compreender a mensagem de um cartaz com poucas frases e uma ilustração.

Em matemática, a média caiu 9,1% durante a pandemia, indo de 231,3 pontos para 210,2 —é o menor resultado desde 2013. Nesse patamar, 61,6% dos alunos não conseguem resolver um problema de matemática em que precisam fazer uma conta de subtração

Também houve piora no rendimento dos alunos no fim do 9º ano do ensino fundamental. Em língua portuguesa, a média dessa série foi de 241,3 pontos. Apenas 23,9% dos estudantes terminaram essa etapa com aprendizado adequado.

Em matemática, a média foi 246,7 pontos e só 14,3% dos alunos aprenderam o que é considerado adequado para essa série.

Para o secretário, o primeiro passo para recuperar a aprendizagem dos alunos já foi dado, que foi o retorno presencial obrigatório para todos e que só ocorreu em outubro do ano passado. Até então, com a volta gradual, parte dos alunos continuou estudando apenas a distância, mesmo com a dificuldade de acompanhar as atividades.

“O ensino remoto foi importante, mas eu sempre defendi que ele não substitui o presencial. Ele serviu para que os alunos não perdessem o vínculo com a escola”, disse Soares. “A gente não tem como dimensionar o tamanho do fundo do poço que estaríamos sem o esforço para ter o ensino remoto.”

O secretário avaliou ainda que o maior prejuízo será para os estudantes mais velhos.

“Os mais prejudicados são aqueles que estão mais próximos do fim da trajetória escolar. É como se houvesse um dégradé de prejuízo. Acredito que a recuperação pode ser mais rápida entre os mais novos. Os próximos três ou quatros anos vão exigir um grande esforço para que a gente volte ao patamar de 2019”, disse.

Soares disse que as estratégias para a recuperação do ensino estão sendo “pensadas e repensadas o tempo todo” e terão que ser adaptadas a cada contexto. Entre as ações que citou estão a realização de avaliações processuais a cada bimestre, mudanças curriculares, reforço no contraturno e no período regular de aulas e até a organização temporária das turmas de acordo com o nível de aprendizado de cada estudante.

“A gente não organiza as salas de forma homogênea, ou seja, de acordo com a proficiência de cada estudante. Mas as escolas poderão reagrupar as turmas de forma temporária levando em conta o nível de aprendizado dos alunos para que os professores possam trabalhar com turmas mais uniformes”, disse.

Para Olavo Nogueira, diretor executivo do Todos pela Educação, o abismo do ensino foi ampliado durante a pandemia e a recuperação vai exigir que as escolas tenham autonomia para pensar em como ensinar os estudantes daqui para a frente.

“Não basta retornarmos agora com as aulas presenciais e fingir que essa defasagem não existe. É preciso entender onde cada estudante está e trabalhar a partir daí. Essa é uma ação que precisa ser implementada no curtíssimo prazo, não podemos adiar”, diz.

Segundo ele, a Secretaria da Educação também deve ter como meta não apenas retomar ao patamar de 2019. “O nível de ensino não era bom antes da pandemia e piorou muito, mas não podemos nos contentar a voltar para os níveis pré-pandemia.”

Ainda de acordo com Nogueira, além das ações de recuperação, é importante que seja feito um trabalho para evitar o abandono escolar daqueles que estão com maior dificuldade de aprendizado. Ele avalia que algumas estratégias, como a expansão das escolas de tempo integral, podem ajudar a mitigar as perdas.

“Essa é uma das estratégias que tem se mostrado muito eficiente, mas, para que de fato funcione, precisa ser bem implementada. Não pode ocorrer uma expansão acelerada se colocar a qualidade em risco. Esse é o desafio para uma rede com o tamanho de São Paulo.”

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