Abdias Nascimento levou Brizola a levantar bandeira da questão racial – 18/01/2022 – Karla Monteiro

Abdias Nascimento levou Brizola a levantar bandeira da questão racial – 18/01/2022 – Karla Monteiro


Em fins de 1978, quando a anistia já ocupava o debate político, Leonel Brizola e Abdias Nascimento se encontraram no icônico hotel Roosevelt, em Nova York. Expulso do Uruguai, após 13 anos de exílio no país, o temido gaúcho havia encontrado abrigo nos Estados Unidos de Jimmy Carter e, irrequieto, já preparava sua volta ao Brasil e a reorganização do velho PTB.

A conversa fora longa, adentrando a madrugada. O próprio Brizola passou o café e se sentou com caderno e caneta na mão. Fundador do Teatro Experimental do Negro, pioneiro na luta antirracista, Abdias, “o real negro”, segundo o zombeteiro Nelson Rodrigues, convenceu Brizola de que não havia caminho possível para o combate à desigualdade social ignorando o racismo. A luta identitária, que, como agora, dividia a esquerda, não era um capricho.

“Diferente dos soberbos intelectuais, Brizola prestou atenção, sem julgar, sem questionar, sem interromper. E, ao fim, compreendera de maneira orgânica o que o Abdias estava tentando lhe dizer“, contou-me Elisa Larkin, uma norte-americana de Buffalo, mulher de Abdias e autora de dois livros que relatam o que aconteceria a partir daí, da parceria inaugurada: “Abdias Nascimento, a Luta na Política” e “Abdias Nascimento: Grandes Vultos que Honraram o Senado”.

Também recomendaria “Memórias do Exílio”, em que Abdias, entre outros autores, repassa a própria trajetória a limpo. Com espanto eu li o artigo de Antônio Risério nesta Folha, em que ele levianamente fala da passagem de Abdias pelo integralismo, sem contextualizar, sem colocar os fatos em perspectiva.

Muita gente boa seguiu Plínio Salgado, como Vinícius de Moraes. Antes da Segunda Guerra começar, as coisas não estavam tão nítidas.

“Refletindo hoje, agora, é fácil dizer que o caminho certo era o da esquerda. Mas aí é que é”, comentou Abdias no artigo. “As lutas nacionalistas e anti-imperialistas, a oposição ao capitalismo e à burguesia, foram os temas que me atraíram para as fileiras integralistas. […] Logo que percebi, concretamente, o racismo dentro do integralismo, me desliguei definitivamente desse movimento político.”

O revolucionário

No próximo sábado, 22 de janeiro, Leonel de Moura Brizola completaria cem anos. Nasceu num ano pródigo: 1922. Enquanto os modernistas sacudiam tudo com a Semana de Arte Moderna, os gaúchos se coçavam para pelear na anunciada Revolução de 1923. Seu pai, José Brizola, um maragato, morreria numa tocaia armada pelos chimangos. Mas isto é uma outra história, das muitas histórias espetaculares que compõem a biografia do engenheiro, como era chamado.

Em fevereiro de 1962, por sinal, o Washington Post publicou uma reportagem que ecoou na tradicional rua da Praia, em Porto Alegre, dando a medida da imagem que o governador do Rio Grande do Sul passava para o mundo: “Mais perigoso do que Fidel Castro”, conforme o título.

Naquele ano, Brizola, ocupando o Palácio Piratini desde 1959, vinha de uma sucessão de ousadias: encampação de multinacionais, desapropriação de terras para reforma agrária, um audacioso projeto de educação, além da insuperável Campanha da Legalidade, a primeira e única vez que um golpe militar fora derrotado na América Latina.

“Quanto mais eles vinham com a faca, mais eu entrava com o peito”, ele costumava dizer, ao explicar sua controversa atuação nos tumultuosos tempos que antecederam o golpe de 1964.

“Não tinha nenhum general negro nesta ditadura”

A aproximação com Abdias Nascimento o levou a incorporar a questão racial como bandeira. Já na famosa Carta de Lisboa, de 1979, resultado do encontro ocorrido em Portugal para marcar a reorganização do PTB, depois PDT, graças ao golpe engendrado pelo general Golbery para surrupiar de Brizola a sigla, está incluso o parágrafo firmando o compromisso do partido com a causa da representação negra na política.

Nas eleições de 1982, quando Brizola se elegeu governador do Rio de Janeiro, Abdias Nascimento concorreu a deputado federal, ficando de suplente. Para abrir uma vaga na Câmara, Brizola, então, puxou deputados para o seu secretariado.

Ao mesmo tempo, entregou três importantes secretarias a negros. O coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira assumiu a Justiça. Edialeda Salgado do Nascimento, a Secretaria de Promoção Social. E Carlos Alberto de Oliveira, o Caó, autor da futura Lei Caó, a secretaria de Trabalho e Habitação.

“O Abdias assumiu como único deputado negro da Câmara dos Deputados, numa manobra do Brizola. Cinco anos depois, na Constituinte, havia quatro“, lembrou Elisa. “O novo governo do Rio tomou posse no dia 15 de março. O primeiríssimo ato do Brizola foi instituir no calendário do estado a celebração do dia 21 de março, em homenagem ao grande levante na África do Sul.”

De vez em quando, é verdade, Brizola também escorregava na casca de banana do racismo estrutural, que, pasmem, até hoje tem gente que insiste em abjetamente negar. Numa roda de conversa do PDT, começou o inflamado discurso falando sobre “a noite negra da ditadura“. Sentado ao seu lado, Abdias pulou da cadeira: “Negra, não, Brizola. Não tinha nenhum general negro nesta ditadura“.

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