‘A Idade Dourada’: Veja o que é fato e o que é ficção na série da HBO – 27/02/2022 – Cinema e Séries

‘A Idade Dourada’: Veja o que é fato e o que é ficção na série da HBO – 27/02/2022 – Cinema e Séries



The New York Times

ATENÇÃO: Esse texto tem spoilers da série “A Idade Dourada”

Uma cena do episódio da última semana de “A Idade Dourada”, o suculento drama de época de Julian Fellowes na HBO, nos leva ao Central Park de Nova York no final do século 19. Marian Brook (Louisa Jacobson), jovem, rebelde e recentemente chegada da obscura Pensilvânia, está andando de carruagem com suas duas aristocráticas tias quando a conversa passa a girar em torno de Caroline Astor, a temida decana da alta sociedade nova-iorquina.

“Vocês gostam da senhora Astor?”, pergunta Marian. “Isso é como perguntar se alguém gosta de chuva”, responde sua tia Agnes (Christine Baranski, em um papel altamente esnobe). “Ela é um fato da vida com o qual precisamos conviver”.

O diálogo é uma das muitas referências à história de Nova York que aparecem em “A Idade Dourada”. A série se passa em um período de mudanças dramáticas e acompanha um momento em que o centro de gravidade da cidade se transferiu para a parte norte de Manhattan; as regras da sociedade foram reescritas na mesma velocidade com que novas mansões, inspiradas pelo estilo europeu, eram construídas ao longo da Quinta Avenida; e em que famílias antigas, como os Astor e os Schermerhorn, passaram a enfrentar desafios sociais e financeiros da parte de arrivistas com sobrenomes como Vanderbilt, Gould e Rockefeller.

O nome pela qual a era é conhecida, que vem de “The Gilded Age”, livro de Mark Twain e Charles Dudley Warner, deixa claro que o brilho era só superficial. “Dourado [“gilded”] quer dizer recoberto de ouro, não feito de ouro”, disse Erica Armstrong Dunbar, professora de história na Universidade Rutgers e principal consultora histórica de “A Idade Dourada”, bem como produtora executiva da série. “Era uma época em que a desigualdade econômica, segregação racial, violência e nativismo viviam lado a lado com o luxo e a opulência”.

O historiador social Carl Raymond, cujo podcast, “The Gilded Gentleman”, se concentra naquela era, disse que as mudanças culturas foram propelidas principalmente pelas “grandes mudanças na infraestrutura comercial, em um momento no qual quantias insanas de dinheiro estavam entrando e a velha Nova York estava sendo desafiada pela nova”.

“Foi o momento em que a nova sociedade foi criada e todos estavam em busca de poder”, ele disse. A série da HBO fala principalmente da Idade Dourada de nossa imaginação, repleta de famílias milionárias, mobília suntuosa, diversões dispendiosas regras sociais severas, fortunas imensas e ambições desmesuradas.

Tendo chegado mais ou menos à metade de sua primeira temporada, que termina em 21 de março, “A Idade Dourada” até agora combinou melodrama fictício com algumas referências históricas reais, entre as quais a importância da imprensa negra, o influxo dos magnatas das ferrovias –estratosfericamente ricos – para a cidade, e uma disputa fervilhante na alta sociedade quanto à rejeição do teatro de ópera, um dos pilares da elite nova-iorquina, aos recém-chegados.

Os eventos transcorrem entre alguns personagens completamente fictícios e outros claramente inspirados por pessoas reais –a ambiciosa Bertha Russell (Carrie Coon), por exemplo, canaliza Alva Vanderbilt, uma figura histórica conhecida por nunca perder de vista os seus objetivos.

Entre as figuras histórias estão Caroline Astor (Donna Murphy), a rainha da sociedade na Idade Dourada; Ward McAllister (Nathan Lane), o esnobe árbitro social da elite; Clara Barton (Linda Emond), fundadora da Cruz Vermelha dos Estados Unidos; e T. Thomas Fortune (Sullivan Jones), escritor, orador, líder dos diretos civis e editor de jornais negro.

Distinguir o real do fictício é parte da diversão de assistir a “A Idade Dourada”, que recentemente teve anunciada sua extensão por uma segunda temporada. Para ajudá-lo nesse exercício, abaixo algumas referências sobre os elementos que dão forma ao mundo da série.

UPTOWN X DOWNTOWN

No primeiro episódio, o chefe de cozinha que trabalha para a avidamente ambiciosa família Russell, os novos ricos da série, menciona em tom de aprovação a mudança da família para a elegante Rua 61, cerca de 30 quarteirões ao norte de sua casa anterior. “A Rua 30 saiu de moda”, ele declara.

De fato, os anos iniciais da história da classe alta de Manhattan são uma história de migração rumo ao norte, de Bowling Green para Washington Square, e depois para Murray Hill e as ruas 50 a 59, para por fim subir ainda mais pela Quinta Avenida nos anos 1880.

“De repente, pessoas que você sempre tinha achado serem inferiores a você, pessoas com as quais você não desejava se associar, estão morando no seu quarteirão”, disse Esther Crain, autora de “The Gilded Age in New York” e fundadora do site Ephemeral New York, que explora aspectos interessantes da cidade.

Ela descreve o período como uma era na qual corrupção, exploração e propinas eram onipresentes, mas no qual a cultura, o estilo de vida e as instituições da cidade começaram a ganhar forma, cimentando a sensação dos nova-iorquinos de que sua cidade era o centro de todas as coisas.

“Nova York era o microcosmo daquela era –a capital financeira do país, a base industrial para muitas e muitas grandes empresas”, ela disse. “Tinha a cultura, o capital, o teatro, o comércio e a moda, e todo mundo que desejava ser alguém sentia a necessidade de viver aqui”.

A ÓPERA

Em “A Era da Inocência”, livro em que Edith Wharton disseca elegantemente a Nova York da Idade Dourada, o primeiro capítulo mostra os personagens principais a caminho de assistir a uma apresentação de “Fausto” na Academy of Music, uma casa de ópera amada pela velha guarda nova-iorquina. “Os conservadores a apreciavam por ser pequena e inconveniente, e por isso manter afastadas as ‘pessoas novas’ que Nova York começava a temer mas pelas quais a cidade ao mesmo tempo se sentia atraída”, escreve Wharton.

De fato, ainda que Bertha Russell, a mais rica e a mais ousada das arrivistas de “A Idade Dourada”, vá à ópera como convidada, ela descobre para seu profundo desgosto que todo seu dinheiro não basta para comprar um dos cobiçados camarotes do teatro. A Academy tinha menos de duas dúzias de camarotes, todos controlados por famílias importantes da cidade e legados a seus herdeiros.

“Ir à ópera naquela época era um campo de batalha social”, disse Raymond. “O lugar em que você se sentava, as roupas que estivesse usando e –acima de tudo– quem o visse ao fazer tudo isso: todas essas coisas eram importantes demais”. O layout do teatro favorecia o exibicionismo social, com “os camarotes de um lado do palco oferecendo vista para os camarotes do outro lado”.

Em Nova York, as pessoas ricas que se irritavam por se verem excluídas de alguma coisa tendiam a reagir criando novas alternativas, mais luxuosas. Nesse caso específico, um grupo dos novos ricos excluídos se uniu, arrecadou dinheiro e construiu um teatro melhor. (Um personagem de “A Idade Dourada” os descreve como “J.P. Morgan, os Rockefeller, os Vanderbilt –todos os oportunistas de Nova York”. O resultado, a primeira versão da Metropolitan Opera House, foi inaugurado em 1883, na Broadway com rua 39. (Incapaz de concorrer, a Academy tentou se reinventar como um teatro de vaudeville, mas fechou alguns anos mais tarde.)

Dunbar disse que a facilidade que os ricos tinham de comprar lugar na sociedade durante o período refletia e reforçava um dos mitos fundadores dos Estados Unidos: o de que o país era um lugar no qual tudo era possível, desde que a pessoa se dispusesse a trabalhar e conseguisse ganhar dinheiro.

“Pode parecer que estamos falando apenas de um caso de dinheiro velho brigando contra dinheiro novo, e isso pouco importa”, disse Dunbar. “Mas o caso ilustra uma mudança da guarda e das tradições, e a maneira pela qual este país sempre lidou com mudanças”.

SOCIEDADE EUROPEIA

Os Estados Unidos ainda eram um país jovem durante a Idade Dourada, com pouco mais de 100 anos de idade, criados por uma revolução cuja motivação envolvia repudiar os modos do passado. Mas apesar de tudo, os endinheirados de Manhattan continuam determinados a emular os costumes europeus.

Em “A Idade Dourada”, Bertha Russell reflete as preferências da era ao se vangloriar de que seu novo chefe de cozinha é francês. Sua nova e extravagante casa foi projetada a fim de emular as grandiosas mansões europeias, exatamente como aconteceu no caso das mansões dos novos ricos reais de Nova York naquela era. (Os interiores também costumavam estar repletos de materiais adquiridos em castelos na Europa e importados a altíssimo custo.) O novo teatro de ópera se inspirou em suas contrapartes europeias. Os costumes sociais –os elaborados códigos de vestimenta, maneiras e decoro, ditando quem podia ser apresentado a quem– também eram muito europeus, talvez como reação ao nervosismo das classes altas diante da empolgante mas ameaçadora ideia americana de mobilidade social.

“O modelo de Caroline Astor era a Europa; ela queria criar uma corte europeia nos Estados Unidos”, disse Raymond. “Uma das ironias mais engraçadas da Idade Dourada é que temos uma sociedade que tenta desesperadamente emular as cortes europeias e a aristocracia britânica”.

SRA. ASTOR X SRA. VANDEBILT

Por muitos anos, Caroline Schermerhorn Astor foi a soberana da sociedade de Nova York e o epítome da velha guarda de Manhattan. Com a ajuda de seu amigo Ward McAllister, ela decretava quem era e quem não era digno de admissão. Diz-se que as festas dela estavam limitadas a um máximo de 400 convidados, de apenas 25 famílias tradicionais.

Mas ela encontrou alguém capaz de derrotá-la: a riquíssima Alva Vanderbilt chegou a Nova York e em 1882 se instalou na mais exagerada das novas mansões que a cidade já tinha visto, na esquina da rua 52 com a Quinta Avenida.

Projetada pelo renomado arquiteto Richard Morris Hunt sob orientação rigorosa de Vanderbilt e conhecida como “Petit Chateau”, a casa era enorme, feita de pedra calcária e em um estilo que combinava o gótico à renascença francesa.

A casa na verdade parecia mesmo um castelo, na medida em que é possível ter um castelo no meio de uma cidade americana. Astor, por sua vez, tinha duas casas, uma na região das ruas 30 a 39, cada vez menos na moda, e outra na região das ruas 50 a 59. Mas nenhuma delas era comparável à mansão Vanderbilt.

Em 1883, Vanderbilt organizou um suntuoso baile de máscaras para mais de mil convidados. Todos queriam ser convidados, Mas Astor e sua filha Carrie (que supostamente estava desesperada por um convite) ficaram fora da lista. Reza a história que, depois que Vanderbilt disse a McAllister que jamais tinha sido apresentada a Astor, a rival imediatamente a visitou –e logo recebeu um convite para a festa.

Infelizmente, como no caso de todas as demais mansões da Idade Dourada, a manutenção do Petit Chateau dos Vanderbilt um dia se tornou cara demais para a família. Em 1926, os herdeiros venderam a casa a incorporadores de imóveis por US$ 3,75 milhões, e ela foi demolida. Hoje existe um edifício de escritórios no local.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci. 

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